No artigo anterior demonstrei a minha desconfiança relativamente a estas práticas tal como são realizadas actualmente. Mas isto não significa que eu seja radicalmente contra ou que não reconheça que poderia ser de outra forma e que poderiam ser úteis e cumprir uma missão de ajuda, facilitando um tipo diferente de operações financeiras no complicado mundo das transferências internacionais. Vamos nos aprofundar em alguns aspectos importantes que nos ajudarão a entender melhor o como e o porquê desse assunto.
A primeira coisa a fazer é saber a diferença entre direitos federativos e económicos de um jogador inscrito num clube. Os primeiros são sempre os do clube e os financeiros são na medida em que o clube consegue mantê-los sob controlo, o que nem sempre acontece. Esta é uma das questões-chave do problema porque à medida que um clube perde o controlo da parte económica dos direitos de um jogador a favor de um terceiro, começa a dependência desse terceiro devido ao dinheiro por ele investido no jogador ou no clube. E os órgãos sociais não gostam nada disso porque entendem que é contrário à política de fair-play financeiro e de equilíbrio orçamental que querem implementar nos clubes.
Entendem que permite e facilita o endividamento excessivo, enfraquece a capacidade de decisão dos clubes e coloca nas mãos de terceiros uma capacidade de influência e decisão que não podem controlar e que consideram estranha ao mundo do futebol. Está bem fundamentado, mas é muito difícil não reconhecer que por trás disto há preocupação e medo pela previsível perda de poder que esta forma de agir causaria. Como existe também o poder excessivo dos Agentes (topo) dos jogadores que podem dificultar a necessária fluidez, transparência e capilaridade de um mercado difícil, opaco e desonesto como o das transferências de jogadores de futebol. É compreensível que a preocupação e o medo disparem quando os responsáveis por isso agem em conjunto e agregam recursos e influências. É aí que começa um grande problema.
A primeira e última causa é, como quase sempre, o dinheiro. Mas não o dinheiro que o fundo de investimento coloca para ganhar os dividendos correspondentes, mas o dinheiro que o clube vendedor quer ganhar ao “manter” o jogador de futebol enquanto puder, que o jogador de futebol quer começar a ganhar o mais rapidamente possível e que o clube comprador pretende poupar ao conviver com os gestores dos fundos. A situação geral do futebol no mercado correspondente muito contribui para tudo isto e não é por acaso que estes fundos têm prosperado especialmente em Portugal e Espanha, onde a legislação protege, protege e facilita uma operação opaca, especial e leve em termos das obrigações fiscais, financeiras e laborais dos clubes. Também nos estritamente de futebol. Temos de reconhecer que algo está a mudar e que há mais rigor e exigência nesta matéria. É aqui que a questão dos fundos não cabe e onde foram disparados alarmes para proibi-los ou redirecioná-los de forma adequada e em sintonia com os novos tempos.
Na minha opinião, existem dois outros factores muito importantes que devem ser apontados para compreender plenamente o fenómeno na sua devida extensão. Por um lado, devemos definir claramente o quão especial é o futebol e até onde deve ir a sua particularidade. Sim, deve ter aspectos específicos (jurisdição ordinária ou desportiva, obrigações legais, responsabilidades autênticas e verdadeiras dos dirigentes e simulações de difícil evasão) e intrínsecos à própria essência do futebol que sejam implementados o mais rapidamente possível e que assim seja para melhor. Por exemplo, se os clubes podem utilizar este tipo de operações para financiar as suas contratações e transferências, porque não o fariam? Se os pequenos, médios e grandes aforradores investem o seu dinheiro em todo o tipo de ações, ativos financeiros, pensões e planos de pensões e poupanças, seguros, etc., porque não o poderiam fazer neste tipo de ativos se estes fossem bem definidos, claros e transparentes, com legislação adequada e com funcionamento correto e controlado? O futebol é especial, já sabemos, mas não deve ser tão especial a ponto de não aproveitar adequadamente aquilo que, sendo legal, lhe beneficia e permite resolver os seus problemas e atingir os seus objetivos. E esta questão dos fundos, bem geridos, poderia contribuir para isso, mas neste momento o que há é opacidade e benefícios para alguns que seguem os seus negócios, deixando rastos preocupantes.
Por outro lado, é aconselhável não se enganar e deixar de reconhecer que a questão é complexa, difícil, abrange os diferentes atores desse grande teatro que é o futebol e afeta de diversas maneiras o seu ego e a sua carteira, afetando a sua capacidade de decisão e influência num mundo cheio de vaidades, destaques e disfarces. No final das contas, é muito difícil evitar que a desastrosa política de transferências de um clube o leve à ruína se seus presidentes ao longo de décadas saírem ilesos e se o que os torcedores querem são gols e títulos sem se importar com mais nada......ou que outro clube viva além de suas possibilidades por muitos anos, embora isso signifique a falência ou o desaparecimento da entidade. As divisões inferiores estão cheias de casos como este, embora ninguém queira notar. A política que parece prevalecer é…..”o último a apagar a luz.”.
No final chegamos a outros tipos de questões que estão no centro de tudo isso, como:
Por que se paga tanto dinheiro por um jogador de futebol nas principais transferências? E já parou para pensar, caro leitor, que quase todo o dinheiro é para e para pagar o jogador de futebol de plantão (como deveria ser, embora não sei se tanto) que deve responder a enormes expectativas que raramente são satisfeitas?... Em suma, se os fundos abençoados servem para melhorar tudo isto, que cheguem na devida forma e o mais rapidamente possível... mas, realmente, que seja pelo melhor.
Autor: Eduardo Silva